quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Interdisciplinaridade: um conceito em construção

ALVES, Railda F.;  BRASILEIRO, Maria do Carmo E.;  BRITO, Suerde M. de O.. Interdisciplinaridade: um conceito em construção. Episteme, Porto Alegre, n. 19, p. 139-148, jul./dez. 2004.          
RESENHA
Ysmailyn Siqueira Costa

            As autoras do artigo são docentes da Universidade Estadual da Paraíba;  a primeira é Mestre em Saúde Coletiva , a segunda, Doutora em Psicopatologia Clínica e a terceira, Doutoranda em Educação . Apesar das diferentes formações e atuações profissionais, tem aqui o objetivo comum de analisar o conceito de interdisciplinaridade sob o ponto de vista dos distintos paradigmas: a filosofia do sujeito e do marxismo dialético.
            Para a filosofia do sujeito, este é absoluto na construção do conhecimento e do pensamento, sobre a qual alguns autores são citado para exemplificar as posições existentes nessa perspectiva.
            O primeiro citado é Japiassú (1996), o qual defende que na interdisciplinaridade ocorre mudança entre as disciplinas, decorrente de uma intercomunicação compreensível entre elas. Defende também que a viabilização da interdisciplinaridade é a formação de equipes multidisciplinares para o desenvolvimento de projetos de pesquisa. Na continuação dos trabalhos de Japiassú, Fazenda (apud VEIGA NETO, 1996) aplica os conceitos daquele para o campo educacional brasileiro, propondo para este uma pedagogia interdisciplinar. Segundo Demo (1998), a  possibilidade de existirem em ciência a especialização extrema ou a generalidade deve ser anulada; sua recomendação é que existam especialidades ciência para aprofundamento do conhecimento, mas que os especialistas sejam capazes de dialogar com outros de diferentes áreas, buscando a abrangência de sua particularidade.
            Os autores ainda defendem que alguns discursos sobre interdisciplinaridade não conseguem superar a visão proporcionada pela filosofia do sujeito. Para isso, cita como exemplos: Sierpierski (1998), o qual afirma ser característica principal da interdisciplinaridade é o conflito (conflito de posições antagônicas) e não a harmonia; Burity (1998), o qual defende que a interdisciplinaridade tem uma ideologia de buscar profissionais cada vez mais eficientes ante à lei do mercado globalizado.
            Um paradigma totalmente crítico à filosofia do conhecimento é o marxismo dialético, que é representado no artigo em questão por alguns autores, discorridos a seguir.
            Segundo os autores Jantsch e Bianchetti (1997a) a abordagem interdisciplinar deve ser entendida como um produto histórico, no qual estejam abordadas as construções históricas do sujeito e objeto, posto que estes não são autônomos; para Jantsch e Bianchetti (op. cit.), o maior motivo para rejeição da filosofia do sujeito como base à interdisciplinaridade é de que esta filosofia superestima o sujeito (homem) no processo de construção do conhecimento.
            Veiga Neto (1996) analisa em seu trabalho os estudos de Japiassú e Fazenda sobre interdisciplinaridade e afirma ser os conceitos de disciplinaridade e interdisciplinaridade integrantes de um mesmo processo educacional, onde a última pode ser entendida como “um trabalho conjunto de várias disciplinas em direção do mesmo objeto de pesquisa, com o propósito de aproximá-lo, cada vez mais, da realidade objetiva, à medida que constrói sua perspectiva dialética ”.
            Por fim, o artigo relaciona o conceito de interdisciplinaridade com a Teoria das Representações Sociais; nessa interface estão em questionamento a universalidade dos métodos e instrumentos de pesquisas, bem como a compreensão dos diversos campos de estudo mediante à construção de teorias e metodologias de pesquisa.
            Os autores Sá (1998a; 1998b), Moreira e Oliveira (1998) fazem a correlação entre interdisciplinaridade e representações sociais através de duas realidades: a da realização de pesquisas multidisciplinares, nas quais pesquisas sobre o mesmo tema são realizadas em campos diversos, e a da escola brasileira de representações sociais ser caracterizada pela diversidade temática, defendendo-se que “a interdisciplinaridade é entendida como a identificação dos pontos comuns dentre as diferenças, na tentativa de buscar o generalizável no particular ”. Como não exploram a dialética em seus estudos, os autores acabam engendrando suas perspectivas na filosofia do sujeito.
            Jodelet (1989) faz uma argumentação de que a Teoria das Representações Sociais consegue articular diversas perspectivas dos diversas áreas da pesquisa científicas, visto que existe uma interlocução dialética na base da construção de seu conceitos.
            As autoras concluem então que a Interdisciplinaridade e a Teoria das Representações Sociais podem ser analisadas por uma visão dialética, que busca a compreensão do ser humano e portanto, da ciência, contrariamente à  filosofia do sujeito.
            O artigo em questão aborda de maneira muito sistemática diversos conceitos e pareceres acadêmicos sobre o tema da Interdisciplinaridade aplicado nas Ciências e na Pesquisa. O que observo em seu discorrer é a inexistência de conceitos mais atuais sobre Interdisciplinaridade das duas vertentes abordadas pelas autoras, visto que um dos marcos mais importantes sobre o assunto foi o Simpósio Interdisciplinaridade em Questão, realizado em Campina Grande – PB, Brasil,  em 1998 e citado pelas autoras. O artigo aqui resenhado foi escrito no ano 2004 e existem poucos conceitos (pelo menos citados) depois do ano 1998, indicando que a produção que verse sobre Interdisciplinaridade foi pouco expressiva. E visto que as Ciências progridem em suas sistematizações e descobertas, seria necessário, portanto, novos olhares a este conceito,  o qual contribuiria para novas abordagens ao estudo de objetos diversos.

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